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Reflexões sobre a reconstrução do jornalismo local

  • 15 de abr. de 2021
  • 7 min de leitura

(Freepik)



Lorene Souza | 06.04.2021


O jornalismo local tem sido tema de recentes discussões, entre todas as demais sobre as transformações crescentes pelas quais passa a comunicação midiática no Brasil. Boa parte delas, em especial, tendo origem com as pesquisas do setor desenvolvidas e divulgadas pelo Atlas da Notícia, desde 2017.


Cabe refletir sobre o conceito de jornalismo local e porque ele vem sendo alvo cada vez mais constante nas reflexões atuais sobre o futuro do campo.


A expressão jornalismo local corresponde a jornalismo de Cidade ou a noticiário local, que cobre fatos e eventos no contexto de um município, até mesmo de uma microrregião. O avanço das tecnologias da informação tem favorecido o maior o uso da internet pela população em geral, concomitante com os movimentos migratórios da mídia tradicional para o digital.


De um lado, tende a crescer o interesse da população por um jornalismo local de qualidade e sob menos interferência das costumeiras forças e influências políticas do município. De outro, o avanço da mídia tradicional no ambiente online certamente poderá alcançar essa mesma população, restando saber a que nível de personalização, de localismo – ou de bairrismo - das notícias. Fica evidente entre as duas situações o aspecto geográfico, à revelia da era digital, que reassume o seu papel decisor em termos de qualidade da informação local.


A ausência de um jornalismo local fortalecido deixa a população de um município carente de informações independentes que amparem o seu voto, o conhecimento dos problemas e sirvam de apoio para a cobrança de soluções junto aos governantes, tendo em vista as necessidades específicas do lugar.


Porém, é exatamente essa deficiência que vem fortalecendo uma revalorização e retomada, ou melhor dizendo, reconstrução do jornalismo local. Onde há demanda, sempre cabe oferta. E a oferta de jornalismo local é apontada como incipiente na maioria dos municípios brasileiros, ainda que seja possível vislumbrar uma alteração positiva em curso, conforme as apurações do Atlas da Notícia.


Jornalismo local em evidência – e insuficiência


O Atlas da Notícia é uma iniciativa voltada ao mapeamento dos veículos jornalísticos no país, cuja a primeira pesquisa publicada em 2017, se equiparando a um “censo” da imprensa nacional.


É viabilizada por meio de uma parceria entre o Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor), Volt Data Lab, Facebook e a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).


Em seu último levantamento, foram mapeados 13.092 veículos jornalísticos ativos em 2020, (10,6% a mais do os registrados na edição de 2019), o fechamento de 272 veículos e 1.172 novos veículos incluídos na base, que já nasceram digitais.


São veículos online que predominam na região Nordeste do Brasil e que impactaram de forma positiva o total de “desertos de notícias” - lugares com total ausência ou produção muito reduzida de notícias locais -, que aparecem agora 5,9% menor do que na apuração anterior.


Outros pontos levantados pelo Atlas da Notícia e que merecem destaque são o fechamento de impressos e o aumento de veículos no meio digital. De uma forma geral, indica uma realidade em que os grandes veículos enfrentam, como diversificar o modelo de negócios, readequar a estrutura de custos e atualizar os métodos de produção de conteúdo.


Em termos de veículos por mídia, predominam as rádios, com 35,2%, seguidas de: impresso, 29,4%; online, 25,5%; televisão, 9,7%. Assim, rádio e TV respondem por 45% da atuação jornalística no Brasil.


Os “desertos de notícias”, no levantamento do Atlas de 2020, correspondem a 62,6% de municípios correspondentes a 18% da população nacional.


Em sua maioria e mais concentrados nas regiões Norte e Nordeste, estão 3.280 municípios, com em média 7.100 habitantes, sem cobertura noticiosa relativa ao local onde vivem.


Outros 1.187 municípios estão distribuídos de forma mais igualitária pelo território brasileiro, com população mediana de 17.800 habitantes e contando com até dois veículos locais.


A região Centro-Oeste registra a menor presença de desertos de notícias, inferior a 50% em todos os estados, sendo o indicador de quase desertos bem próximo entre eles. Com a marca de quase 50% de não desertos do país (perdendo apenas para o Rio de Janeiro), está Mato Grosso do Sul, sendo que os estados de Goiás e Mato Grosso apresentam cerca de 25%.


Os estados da região Sul trazem indicadores mais equilibrados entre si, no comparativo com as demais regiões. Ainda que os desertos de notícias predominem em todos eles, o percentual é ligeiramente superior a 50%.


A região Sudeste, especificamente, também não apresenta um cenário tão severo quanto o apurado nas regiões Norte e Nordeste, exceto quanto a Minas Gerais.


O estado lidera com 70% de desertos de notícias e com o menor percentual de não desertos (mais de três veículos mapeados), cerca de 25%.


O Rio de Janeiro é o mais bem avaliado entre os estados da região: tem mais de 50% de não desertos e é o estado com o menor número de desertos de notícias.


O Espírito Santo lidera em quase desertos (um ou dois veículos mapeados) e é o terceiro com mais de 50% de desertos de notícias, logo atrás de São Paulo.


O estado paulistano detém a segunda posição em dois indicadores: no total de desertos de notícias (mais de 50%) e no total de não desertos (cerca de 40%).


% DE MUNICÍPIOS EM CADA UF QUE SÃO

DESERTOS E NÃO DESERTOS


O gráfico exclui o Distrito Federal. Embora tenha várias cidades satélites, o levantamento do Atlas da Notícia considera apenas uma municipalidade, seguindo código municipal do IBGE.

Fonte: Atlas da Notícia de 17.02.2020


Reconstruções pioneiras


O jornalista Carlos Castilho comenta, em artigo (2020) para o Observatório da Imprensa, sobre os grandes players do digital, como Amazon, Google e o jornal Washington Post, que já direcionam investimentos para o jornalismo local nos Estados Unidos, na sequência de projetos de apoio a iniciativas jornalísticas comunitárias promovidos pelo Twitter e pelo Facebook.


No Brasil, vêm surgindo iniciativas nativas do digital, que buscam a democratização e a independência na circulação da informação nas regiões de periferia, por meio de projetos de ensino de jovens ou empreendimentos de coletivos e de comunidades em jornalismo local.


Uma das mais antigas vem a ser o jornal Voz das Comunidades, que teve início em 2005, criado por Rene Silva dos Santos, então aluno de 11 anos da Escola Municipal Alcides de Gasperi, localizada no bairro Higienópolis, cidade do Rio de Janeiro.


Rene morava no Morro do Adeus, uma das 13 comunidades que compõem o Conjunto de Favelas do Alemão. A criação do jornal surgiu após a sua participação em um jornal criado pelos alunos do grêmio estudantil da escola, para mostrar o que acontecia dentro do ambiente escolar e propor melhorias na qualidade de educação.


Em 2010, os bons resultados alcançados levaram o jornal a uma grande projeção, sendo citado por mídias nacionais e internacionais.


Outra referência que pode ser citada é a Énois. Foi fundada em 2009, com a Escola de Jornalismo (EJ), que é voltada ao público jovem e foi uma das primeiras escolas a migrarem para o ambiente online no Brasil, em 2014.


A Énois se descreve como um laboratório que busca impulsionar a diversidade e a representatividade no jornalismo. O projeto atua em três eixos: formação voltada para as necessidades dos jornalistas e suas comunidades; ponte para conexão entre jornalistas locais e redações; distribuição de recursos financeiros para projetos de comunicação local.


Em sua história, acumula a formação em jornalismo de mais de 500 jovens de periferia e a passagem de mais de 4.000 estudantes online. Por meio da Énois, os jovens produziram reportagens em parceria com veículos de abrangência nacional, com quase uma centena de delas publicadas junto a parceiros, como UOL Tab, The Intercept, The Guardian, Nexo, BBC e outros.


Uma outra referência é a Agência Mural de Jornalismo das Periferias, que tem como objetivo, segundo o seu site, minimizar as lacunas de informação e contribuir para a desconstrução de estereótipos sobre as periferias da Grande São Paulo.


Surgiu em 2010, como o primeiro blog de notícias das periferias de São Paulo movido pelo esforço coletivo inicial de 20 pessoas, chegou à produção de mais de 1.000 histórias escritas por mais de 100 correspondentes locais, denominados “muralistas”, contando “histórias que ninguém conta”.


A motivação do projeto veio da percepção do modelo “fácil, rápido e simples” do noticiário na capital paulista, adotado para fazer frente a velocidade de publicação imposta pela revolução tecnológica. Predominavam os fatos mais próximos às redações e também as realidades mais conhecidas dos jornalistas, em geral nos locais onde se concentram o poder econômico e politico das grandes cidades.


Também em São Paulo, em 2012, foi criado o Nós Mulheres da Periferia, um coletivo de jornalismo independente transparente e apartidário, formado por jornalistas moradoras de diferentes regiões periféricas da cidade.


Tem como premissa disseminar conteúdos autorais jornalísticos online e offline, em formatos variados (investigativo, literário, artístico e audiovisual), todos produzidos por mulheres e a partir da perspectiva delas, com uma linha editorial que se norteia pela intersecção de gênero, raça, classe e território.


São alguns exemplos que atestam o crescimento e a importância da atividade informativa local, considerando o novo perfil da mídia noticiosa no digital. Essa nova promessa de trabalho jornalístico nas pequenas cidades, tem chamado a atenção e mobilizado organizações de mídia nacional e também da internet, como já citado, fazendo face à crise dos jornais e à crescente descentralização da produção de notícias.


Além das demandas financeiras e tecnológicas inerentes à produção atual de informação, um dos maiores desafios a ser superado pelos esses novos projetos jornalísticos independentes reside no risco de processos legais.


São iniciativas, por natureza, que têm por princípios priorizar a transparência e o público, em detrimento dos interesses das elites locais, mas que não contam com uma legislação moderna que contemple o novo cenário noticioso digital, prevenindo e combatendo possíveis constrangimentos impostos pelas forças políticas locais aos atuais e futuros reconstrutores do jornalismo das cidades.


Lorene Souza é publicitária e jornalista (17007), mestra em Tecnologias, Comunicação e Educação (UFU), pós-graduada em Marketing (FGV), graduada em Secretariado Executivo e Bilíngue e Administração (Newton Paiva) e graduanda em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ)


 
 
 

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